sexta-feira, outubro 26, 2007

ALGO JÁ ANTES SENTIDO



Os primeiros raios de sol surgem, e todos se levantam para as tarefas usuais do dia-a-dia. Excepto Sarak e Sufranon que estão no cimo das muralhas a observar o horizonte, ambos permanecem em silêncio, mas estão a pensar na mesma coisa. Os seus olhos conseguem ver mais além do que a vista normal alcança, percorrem cada rio, cada bosque, cada caminho, cada comportamento dos animais... mais uma mudança sombria se aproxima, Sufranon já sentiu isto antes e Sarak sente a mesma ansiedade que o seu mestre.
"Mais uma dura provação nos espera, meu rapaz... desta vez, o Sombrio, ele próprio... vem subjugar-nos, o tempo é cada vez mais escasso, mas também não podemos agir antes de tempo...." - Sarak escuta as palavras de Sufranon e concorda com um movimento lento da cabeça, e nesse momento surge Athertyssen que não esperava encontrá-los ali. "É bom ver que estás a melhorar as tuas habilidades... é duro estar a pé tão cedo... mas tu sabes que tem de ser assim. Já resolveste a tua questão com a Sophya?" - Athertyssen hesita um bocado antes de responder, mas permite-se a ele próprio um sorriso - "Sim, já. E tenho pensado bastante desde aí..." - Sarak franze o sobrolho - "Sim....? Sobre o quê?" - Athertyssen não se deixa intimidar pelo olhar inquiridor do seu guardião e responde sem rodeios - "Da minha obrigação para com todos... eu não poderei nunca vacilar nem deixar que as minhas emoções me toldem o pensamento, se o meu destino é derrotar Hyraktar e enviar o Senhor das Sombras para onde pertence....onde quer que isso seja..." - Sufranon estava a ouvir atentamente a conversa e voa do ombro de Sarak para o de Athertyssen - "Falaste bem... mas temos de estar apenas preparados e aguardar... ainda não podemos atrair atenções desnecessárias..." - Sarak reflecte nas palavras de Sufranon e permanece a fitar o horizonte.
Nessa mesma altura, Hyraktar caminha de um lado para o outro a praguejar, até que decide ir ao encontro de Aschka e as suas irmãs e apontar o dedo em fúria - "VOCÊS! O que se passou?! Como é que não conseguiram fazer algo tão elementar como saber onde aqueles vermes estão escondidos? Mas eu tenho que fazer tudo sozinho?!" - nesse momento Aschka fita-o, e provoca-lhe um calafrio na espinha - "É curioso que menciones isso... quando és tu que és incapaz de terminar os TEUS serviços!" - a visão assombrosa do rosto de Aschka é suficiente para o deixar petrificado... já as palavras o deixaram num estado de confusão e dúvida que o começam a atormentar enquanto vê Aschka a colocar uma máscara que lhe oculta a parte queimada do rosto, o que torna a expressão dos seus olhos verdes ainda mais sinistra - "Lembra-te que tu és um fantoche do nosso verdadeiro pai, o Senhor das Sombras! Só te suportamos porque ele vai encarnar em ti para que possa existir neste mundo patético! E se nos fazes perder a paciência.... depressa acabamos contigo e arranjamos outro fantoche... o rapaz que ainda se atreve a resistir-te dava um perfeito não acham, irmãs? Isso sim, seria irónico!" - Aschka e as outras riem-se em tom de chacota, Hyraktar sente-se reduzido à sua insignificância mas mesmo assim ousa levantar a voz - "Parem com a chacota! Eu exijo que me digas que serviço é que deixei a meio!" - Aschka olha-o com desdém e retira a máscara e fita-o com uma expressão ainda mais tenebrosa - "Olha bem para o meu rosto! Quem me fez isto, foi aquele que tu não conseguiste eliminar! Sufranonon!" - Hyraktar não pode acreditar no que ouve - "Não! Eu reduzi-o a cinzas! Estás-me a dizer que um fantasma te feriu?!" - Aschka mantendo a sua postura arrogante acede a elucidá-lo - "Sim... destruiste-lhe o corpo... mas um mago superior como tu não sabia que ele podia fazer um Ritual de Reencarnação antes de morrer?! Sim... ele reencarnou numa ave! E dizes-te tu um mago superior...." - Hyraktar sente o sangue a ferver e não se consegue conter mais - "Cala-te! Isso só é permitido a quem tenha tido o previlégio de ler o Livro Negro das Almas! Que foi roubado por aqueles cães sarnentos, os inúteis dos Hodrakons não o souberam proteger...." - mas nessa altura ele detém-se e fica mudo e incrédulo.
"Que se passa?! Mais alguma descoberta inesperada?!" - questiona Aschka com um tom sarcástico, mas depressa muda o tom quando Hyraktar recupera a presença de espírito e agora é ele que está com um ar sereno e com um gesto da sua mão a faz agarrar à sua cara em agonia e a arrastar-se pelo chão! Sem perder a concentração, com a outra mão paralisa Nayka, Karunka e Ripaka, impedindo-as de o atacarem, e vai falando lentamente para Aschka que grita incontrolavelmente e a única coisa que consegue é fazer com que a máscara lhe caia e se estilhace no chão - "Sabem... o vosso poder é grande, muito grande até! Mas tornaram-se mais fracas... porque se misturaram com a ralé que são os humanos, adquiriram os seus vícios, ficaram mais humanas! Isso é que é a ironia! Eu já fui um deles... agora sou aquilo em que me tornaram... e se voltei cá foi para os eliminar! Não foi para fazer o que eles gostam de fazer... mas eu serei bastante generoso e talvez poupe o rapazinho para que vocês possam fornicá-lo... ou limito-me somente a castrá-lo e a conservar o membro dele! Pronto...Aschka, o mal já foi compensado... agora vou deixar-vos a sós... suas cabras humanas!" - Hyraktar recua e retira-se, largando altas gargalhadas, mas depois pára, pois algo que se lhe atrevessou no pensamento o deixou perturbado, entretanto Nayka e as restantes vão socorrer Aschka que a medo toca na sua cara, mas surpreende-se ao constatar que as queimaduras desapareceram... e pede um espelho para ter a certeza... ela sorri, mas depois o seu olhar torna-se tão azedo que estilhaça o espelho - "Não me voltarás a humilhar... maldito sejas!"

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